Reflexões sobre o nosso tempo

Aqui na Nuts Design de Ideias conversamos, deliberadamente, sobre tudo. Tudo mesmo: publicidade, comunicação, comportamento, filosofia, sociedade, música, arte, política, esporte e tudo mais o que vem a cabeça. Mas um dos assuntos que mais interessa, é a conversa em si. Não somente pelo prazer, mas pela vontade de levantar questões e criticar o mundo em que vivemos. Perceber como a sociedade se molda através de determinados padrões estabelecidos por um “tempo”.

Segue então uma reflexão pessoal, despretensiosa e, ao mesmo tempo, compromissada de @juliocoutinho, diretor de planejamento da Nuts.

A era das telas

Vou falar algo que pode parecer óbvio, mas que nem sempre assumimos ou lembramos. Faço deste texto um exercício para minha memória, assim quando eu estiver tomado por uma onda “old is cool” leio ele como um “chá de realidade”.

Vivemos no tempo das várias versões dos fatos, das múltiplas e excessivas informações, em que o passageiro, o efêmero reinam. Vivemos ao lado de definitivas e, ao mesmo tempo, momentâneas verdades.

Neste contexto fica bem difícil crer, abraçar, defender uma ideia sem se tomar pela angustiante sensação de que em breve mudaremos de opinião. Poucos acontecimentos, conceitos e pensamentos nos dão uma certeza que sirva para nos localizarmos em determinado espaço/tempo.

Tomar uma decisão torna-se algo simples e complexo. Simples se pensarmos que rapidamente o contexto e a verdade serão outros. Complexo pois precisamos fazer escolhas a longo prazo, nossos antepassados sempre traçaram parâmetros e metas de curto, médio e acredite longo prazo. Mas como tomar uma decisão de longo prazo em um contexto em que este parece não existir? A resposta para isto talvez seja abraçar as poucas verdades definitivas.

Dentre as poucas verdades “definitivas” que vivemos hoje resgato uma, a que me parece as mais factual e inegável: estamos sem dúvida alguma vivendo a era das telas.

Como disse acima, esta parece ser uma afirmação óbvia, mas que por vários momentos teimamos em não aceitar e em não enxergar. Talvez por preferimos abraçar hábitos locais, ou nos mantermos dentro do status quo, como se o uso de uma fórmula já testada fosse a resposta para o futuro incerto.

A era das telas se divide em duas grandes etapas, a primeira iniciada com a criação da televisão, mídia que conseguiu, e ainda detém, maior cobertura e audiência. A segunda etapa vem com a criação da internet. Foi a internet que justificou e deu vida a mais uma porção de telas.

A diferença entre as etapas é bem grande e, ao mesmo tempo, bem clara; não precisamos então entrar nesta enumeração, afinal não é esta a intenção deste texto.

Ressalto apenas um pensamento que pode não ter ocorrido: a etapa 2 não matou a 1, a etapa 2 é um upgrade da 1, ou seja a internet não vai matar a TV. A internet é só uma evolução/complemento da TV.

Para entendermos a relevância da era das telas precisamos antes assumir e entender outro conceito fundamental: o da cultura do entretenimento, da diversão. Cultura esta que tornou-se característica presente em praticamente todas as organizações sociais globais.

A cultura do entretenimento é fundamental para o equilíbrio social e econômico. Sua ausência gera mal estar, afinal do que vale a vida sem a diversão, sem o entretenimento. A busca pelo entretenimento justifica a maioria dos nossos hábitos nos dias de hoje. Pense bem. Por que você trabalha ou estuda? O que você busca na sua existência? O equilíbrio mental, ou espiritual, ou familiar? Não. Nos tempos de hoje buscamos a diversão, o entretenimento.

Lembre-se que a cultura do entretenimento é uma indústria, das mais poderosas, lucrativas e dominadoras da atualidade. E que por trás do entretenimento existe a sustentação dada pelas marcas. A cultura do entretenimento não só usa, como depende das telas para conseguir se sustentar.

As telas são eficientes  ferramentas, elas detém cada vez mais recursos, e estão presentes em cada vez mais situações do dia a dia. As telas não estão mais apenas em frente ao sofá da família, elas assumiram múltiplas funções, aplicações, soluções, que devem ser capazes de dispensar e engolir várias formas de propagação de cultura; pense nas rádios, nos livros, nas revistas. Pense ainda nos custos, na sujeira, na energia e poluição gerada para que as “velhas mídias” chegassem as suas mãos. O modelo industrial não é mais adequado.

Grande parte das casas e indivíduos usam da televisão e internet como única forma de contato cultural. Quando falo em internet encaixo mobile e tablets, estes dispositivos, são o novo tipo de ploriferação das telas, possíveis apenas com o início da etapa dois, eles já tem alcance considerável e mostraram-se de fácil assimilação pela sociedade.

As telas se sustentam e ajudam a sustentar uma cultura que, ao que parece, é necessária e inabalável. Não há como fugir, onde você estiver terá a certeza de ser atingido por alguma tela. E assim será por um longo tempo, alteram-se os tipos de dispositivos mas nada capaz de desestruturar esta era, esta ordem.

Então, por que fugir? Por que negar? Por que abraçar velhos hábitos adequados apenas em outro contexto?

A ideia deve ser de construção e não desconstrução. Entender e usar da tela, pois ela é e continuará a ser durante muito tempo objeto presente em praticamente 100% das casas mundiais.

As telas tem que assumir menos a face do entretenimento e mais a face da cultura. Menos diversão e mais conteúdo, ou então dar a diversão através de conteúdos, no mínimo, mais complexos. Precisamos pensar melhor a cultura transmitida por estas telas, elevando seu nível critico, levando-a a contribuir mais com a sociedade que a mantém, sustenta e com o indivíduo em suas buscas.

Resta aos criativos destes ambientes o alerta sobre o que criar antes de jogar mais uma imagem que vai ser vista e depois jogada fora. Este lixo pode parecer menos nocivo ao meio ambiente, mas nem por isto deixa de ser nocivo a sociedade.

Júlio Coutinho

@juliocoutinho

http://nutsideias.com.br/

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s