Chuva

Ela não sabe pra onde vai. Ele não sabe de onde vem.

– Chuva?

–Chuva! Já começou?

– Tá começando a chover agora, disse o porteiro do cinema.

Mas era mentira. Dentro do cinema, já estava tudo alagado. A última sessão, da última segunda-feira, do quinto mês do calendário gregoriano, traria consigo algumas surpresas e peculiaridades inesquecíveis. O verão já acabou há muito. No filme, ele não existe.

A sala de cinema estaria completamente vazia, não fosse a presença de duas pessoas e uma outra, subumana, que se postou junto ao casal. Logo na primeira cena, a de apresentação, vemos através do vidro do carro a inquietante e estrondosa presença que assolaria as quase duas horas sequentes: a água.

É óbvio – mas nem tanto assim –, que a água daria a tônica de um filme chamado “Chuva“. Neste caso, o elemento combina-se com diversas nuances urbanas: carros, ruas, asfalto, buzina, barulho; criando um novo cenário, existente somente no contexto cinematográfico. Já que é pra chamar a chuva, ela vem assim, de súbito. O cinema fez-se mar: a água invadiu a sala, inundando tela, cadeiras, piso, Alma e coração.

Em uma loja de conveniência, era conveniente para Alma comprar, antes de tudo, uma garrafa d’água. Pronto. Já estamos afogados com apenas cinco minutos de filme. A trama nos transporta para uma atmosfera úmida, esfumaçada e febril.

São três dias de chuva em Buenos Aires. Alma (Valeria Bertuccelli) e Roberto (Ernesto Alterio) não se conhecem. Imersos em sua própria solidão, exilados ao desamparo da água, sobrevivem as suas próprias incertezas, medos e ausências. Alma se separou do homem com quem compartilhou nove anos de sua vida e Roberto voltou ao país depois de trinta anos de ausência. Nesta cidade desconhecida, não tem nada, apenas um pai em coma com o qual não tem relação alguma e cujo apartamento precisa esvaziar. Em meio a um engarrafamento, a porta do carro de Alma se abre. Roberto entra. Alma, sem saber por que, o deixa entrar, sem suspeitar que este encontro modificará os seus próximos dias.

Se “Chuva” fosse um filme americano, ele poderia ser ruim. Mas não. A chuva é argentina, e nossos hermanos descobriram ótimas maneiras de se fazer cinema autoral de qualidade pelas bandas de lá. Sem medo de ser piegas, la película de Paula Hernández encharca os corações com uma bela (des)ventura romântica carregada de conflitos existenciais particulares, através de uma cidade imersa nas águas.

Tá esperando o que? Pegue um guarda-chuva e corra até o cinema. Vai chover.

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